28ª Jornada da Bundesliga, habitáculo do relevo triado
da jornada futebolística nos principais campeonatos internacionais. Figura,
então, destacado, com menção de constituir um baluarte das mais variadas
realidades futebolísticas, o Borussia de Dortmund (que defrontou na passada
sexta-feira o Estugarda, no Signal Iduna-Park).
Borussia
de Dortmund

Muitas são as razões que determinam
o espontâneo alheamento dos portugueses do futebol bávaro e das equipas
germânicas. Algumas delas são sequelas estigmatizadas da nossa “clubite” e
“patriotite” e decorrem do embaraço que tudo o que é alemão causa aos clubes
portugueses e à seleção nacional. A Alemanha tirou-nos precocemente o sonho de
conquistarmos um Europeu no último ano de Scolari, quando já nos tinha apartado
da hipótese de pisarmos o pódio no Mundial de 2006. O Bayern de Munique
infligiu ao Sporting duas pesadíssimas derrotas, em 2009, na Liga dos Campeões,
instalando a disforia nos “leões” ainda jubilantes do segundo lugar granjeado
no grupo do Barcelona (na fase de Grupos dessa edição, superando, na altura, o Shakhtar
Donetsk e o Basileia), e o próprio Borussia de Dortmund, objeto desta análise,
recuando a épocas mais remotas, já brindou, em 1963, o então bicampeão europeu
Benfica com uma mão cheia de golos. Mitigando um pouco o cenário, podemos dizer
que o Benfica “despachou” facilmente o Estugarda (que “empatou” o campeão
Dortmund nesta jornada), na época passada, na Liga Europa, mas, por outro lado,
não deixa de existir, irrevogavelmente, em Portugal, a opinião massificada de
que os teutos não praticam um futebol cativante, não são um paradigma daquilo
que este desporto tem de mais característico. Dissemina-se a ideia que o
futebol alemânico abusa de um pragmatismo calculista, conjugado com uma
letalidade quase cínica, o que, comparando com a vivacidade do futebol
praticado na Premier League, por exemplo, remete o estilo ariano para pouco
mais do que uma deturpação das raízes deste desporto. Esta ideia não será assim
tão extrema, mas deve ser referido que, mais do que falaciosa, é perigosa, por
ser tão distinta da realidade. O pragmatismo e a letalidade são virtudes do
futebol germânico, mas basta ver um jogo como este Dormund vs Estugarda (que os
seguidores da Bundesliga sabem ser um exemplo representativo e não uma exceção)
para se constatar que tais características são demasiado redutoras. De facto, a
liga Alemã, em termos de espetáculo, em alguns jogos, pouco fica a dever à liga
Inglesa, gozando, ao contrário desta, de uma pureza e identidade muito mais
vincadas, ganhas com a segregação meticulosa a que é sujeita e a elevada
concentração de jogadores germânicos.
Dentro
desta virtuosíssima Bundesliga, muito do seu dourado laurel vem dos tons
gemados da camisola do Borussia de Dortmund. O clube grande de Dortmund parece
ter superado terminantemente a crise financeira que assolou o clube nos
primórdios do século e acabou com a hegemonia do Bayern de Munique no futebol
bávaro com um título incontestável e concludente na Bundesliga, na época
passada, sendo ainda este ano o comandante isolado da mesma prova, ofuscando o
brilho das estrelas do rival de Munique. De facto, os pupilos de Jürgen Klopp (o auspicioso timoneiro da formação,
que ainda, recentemente, recusou categoricamente a hipótese de treinar o
Chelsea) logram de um fulgor muito próprio, própria da sua aura quase juvenil
(sem que lhes falte, contudo, maturidade) e da sua veemente coesão de grupo,
sendo o Borussia uma genuína galáxia de protoestrelas. Nomes como Götze, Hummels,
Kagawa, Subotic, Bender e Lewandowski (é notável que os mais velhos deste
pequeno grupo diferenciado tenham só 23 anos), e a estes, brevemente,
juntar-se-á Marco Reus, já contratado para a próxima época, são já referências
do futuro do futebol internacional e, não obstante o peso que exercem na
“performance” da equipa, todas estas individualidades encontram-se agregadas,
absorvidas e harmonicamente compiladas na essência do seu invariável futebol
irmanado. Só esta extrema coesão permite domar a ferocidade dos mortíferos
Robben, Gomez e Ribéry.
Apesar
do Borussia de Dortmund merecer, indubitavelmente, ser o destaque integral e único,
no que toca a formações, desta jornada, incidindo e refletindo na mesma, acaba
por ter de partilhar a sua insigne menção com o Estugarda, que ajudou a
protagonizar um festival de golos no Signal Iduna-Park, na passada sexta-feira,
e, assim, justificou os supracitados elogios ao futebol germânico. O atual 6º
classificado da Bundesliga, contando com as excelentes exibições de Julian
Schieber, Vedad Ibisevic e Georg Niedermeier (Zdravko Kuzmanovic, apesar da
intervenção em dois golos, e Martin Harnik estiveram mais discretos), foi ao
terreno do campeão e preconizou uma réplica impressionante ao poderio local,
determinando que, no término do jogo, o placar do marcador assinalasse um
conclusivo 4 a 4. Deste modo, embora o Borussia seja a distinção e o foco da
jornada (até porque mereceu vencer o jogo), o clube que fez Giovanni
Trapattoni abandonar a Luz em 2005 (depois de devolver o Benfica aos títulos no
Campeonato) acaba por surgir, complementarmente, eminente nesta análise.
Um resultado como este, que regista um total de oito
golos, induz que a eficácia tenha sido o ingrediente imperante neste jogo.
Surpreendente (para quem não viu o jogo) é, então, averiguar-se que o resultado
poderia ser ainda mais avultado, pelo que a opulência de golos é um espelho
fiel daquilo que se verificou. Efetivamente, antes do marcador ser estreado, o
japonês Shinji Kagawa (que, nesta fase, tem sido preponderante, fazendo olvidar
a ausência, por lesão, da estrela da equipa, Mario Götze) já tinha atemorizado
Ulreich por duas ocasiões, primeiro com um remate de ressaca à entrada da área,
após corte deficiente de Kuzmanovic, depois rematando colocado, sem deixar cair
a bola depois de a ter dominado no peito já dentro da área. O Estugarda
retorquiu com remate perigoso de Schieber, após cruzamento de Hajnal, mas o
Dortmund acentuou, de seguida, a sua superintendência das operações atacantes, com
Lewandowski a acertar na cabeça de Niedermeier já depois
de ter ultrapassado Ulreich e Großkreutz
a fazer abanar a trave após passe de Gündogan. Só depois destas incidências, e
ainda de uma encenação de penálti de Ibisevic, é que chegou o anunciado golo de
Kagawa, decorrente de um amortecimento perfeito de Kehl e, antes, de uma
excelente investida pelo corredor direito de Schmelzer. Mas o melhor estava
reservado para a segunda parte (talvez despoletado pela galardão atribuído a Götze
no intervalo), onde, depois de “Kuba”, a passe de Hummels, aumentar a vantagem
para os visitados (Piszczek tinha feito a trave vibrar novamente num lance
similar, minutos antes), sucederam duas “cambalhotas” no marcador e, por fim, a
consumação do empate a 4.
Depois do segundo golo, a equipa da casa reduziu o
ritmo do jogo e o Estugarda progrediu no terreno (ainda sem parecer capacitado para
transpor o controlo de jogo exercitado pelo Dortmund). Todavia, William Kvist,
depois de um lance muito bem trabalhado, atirou à trave e, a meio da segunda
parte, Gentner e Kuzmanovic deram a possibilidade a Ibisevic de reduzir a
diferença para os Schwaben, que este não enjeitou. Sete minutos volvidos,
Schieber, meio aos tropeções, depois de contornar Weidenfeller, estabelecia o
empate na partida e, apenas dois minutos depois, após passe de Kuzmanovic, o
mesmo Schieber instaurava a inusitada mudança na corrente do jogo, colocada
agora a favor dos visitantes. Soou então o alarme em Dortmund, justificativo de
entrarem em campo Lucas Barrios (que substituiu Kagawa) e Perisic. Sustentado
na crença arraigada do seu público, o Dortmund partiu com tudo para cima do seu
adversário e, aos 81 minutos, Hummels, um dos mais promissores centrais do
mundo, cientificou que é multifacetado, ao concretizar um passe de Kehl,
rematando rasteiro ainda de fora de área. A avalanche de futebol ofensivo
vivificou-se ainda mais e só Niedermeier impediu que três golos
a mais se materializassem neste período. Aos 87 minutos, no entanto, o
inevitável golo do Dortmund apareceu da
cabeça do “suplente” Perisic, em canto marcado por Schmelzer, que
comemorou o golo em conformidade com o gáudio vigente nas bancadas, tirando
inclusivamente a camisola e provando desconhecer o desfecho do jogo, pois
faltava ainda uma última incidência de relevo. De facto, no segundo minuto de
compensação, Gentner encheu o pé e “selou” o empate, gelando as bancadas do Signal Iduna-Park. Um final de
jogo épico, condizendo com o grandíloquo espetáculo deste jogo homérico.
O
empate é penalizador para o Borussia de Dortmund, que, mesmo assim, conserva a
liderança na Bundesliga, e o estudo das ocorrências do jogo remete, obviamente,
este resultado para a iniquidade. Isto não invalida que esta sumptuosa partida
de futebol tenha sido um hino à fecundidade do futebol bávaro e à refulgência
do Borussia de Dortmund. E, mais do que nunca, a luta pelo título na Alemanha
está ao rubro.
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